Herdeiros

Liderar é perceber o invisível

Vivemos tempos em que a pressa virou método de gestão. Há sempre muito a fazer, metas a cumprir, reuniões a conduzir. No meio dessa rotina acelerada, alguém da equipe parece diferente. Perguntamos se está tudo bem, a resposta vem automática, “está, sim”, e seguimos adiante, aliviados por não precisar aprofundar a conversa. Mas, infelizmente, essa não é a melhor opção. Nem sempre o que é dito corresponde ao que é sentido. Muitas vezes, o silêncio é uma forma de proteção, e o “está tudo bem” é apenas uma tentativa de não incomodar ou de despistar as angustias e inquietações. No exercício da liderança, limitar-se ao que é explicitado não é suficiente. Liderar exige sensibilidade para perceber o que não está sendo mostrado, para ir além da superfície das palavras e observar o conjunto, atitudes, discurso, mudanças sutis de comportamento, queda de rendimento, isolamento repentino ou irritabilidade fora do padrão. É nesse encaixe de sinais que se forma um cenário real. O que vemos hoje, com uma verdadeira epidemia de atestados para afastamento do trabalho, não surge do nada. Esse fenômeno reflete, em grande medida, os formatos de gestão que têm predominado nas empresas. Ambientes excessivamente pressionados, lideranças distantes e foco quase exclusivo em resultados criam contextos em que qualquer imprevisto ou desconforto físico (ou não), se transforma em razão para não ir ao trabalho. Quando os números importam mais do que as pessoas, o custo do desgaste com as equipes aparece, e ele é alto. Gestores frequentemente afirmam que não têm tempo para conversas individuais, para acompanhar mais de perto a equipe ou para observar nuances comportamentais. No entanto, resultados sustentáveis só são conquistados por meio das pessoas. Ignorar isso é um erro estratégico. Uma equipe que não se sente vista ou apoiada não se desenvolve, não corrige rotas com segurança e não inova com confiança. O líder que não dedica tempo à gestão de pessoas acaba apenas administrando o caos, resolvendo conflitos descabidos e apagando incêndios diários. A cultura do apagar fogo é sintoma de uma liderança reativa, que atua apenas quando o problema já está instalado. Insatisfações com o trabalho raramente surgem de um dia para o outro, elas se constroem na ausência de diálogo, na falta de escuta genuína e na negligência de sinais que estavam ali o tempo todo. Não se trata de ter mais tempo, mas de considerar as questões mais subjetivas e implícitas, e priorizar a gestão de pessoas. Dedicar atenção à equipe não é um gesto de gentileza opcional, é parte central da função de liderar. Significa acompanhar, orientar, corrigir, reconhecer e, sobretudo, perceber. Perceber quando o discurso não combina com a expressão, quando a produtividade cai sem explicação aparente, quando alguém que sempre participou passa a se calar. Liderança não é apenas conduzir metas, é cuidar de pessoas para que as metas sejam possíveis. Em um cenário de desengajamento, desmobilização e pouco compromisso com as entregas, talvez seja hora de rever prioridades. Porque, no fim das contas, organizações produtivas e saudáveis começam com líderes atentos, capazes de enxergar o que não é dito e agir antes que o silêncio se torne ausência.

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Sucessão em empresas familiares: preparar, acolher e transformar

A sucessão em empresas familiares é uma das etapas mais críticas e sensíveis do ciclo empresarial. Mais do que uma simples troca de comando, ela representa um profundo processo de transição de mentalidade, cultura e liderança. Quando conduzida de forma estruturada e intencional, pode ser uma poderosa alavanca para a perenidade dos negócios. Quando mal conduzida, torna-se um risco à continuidade e à harmonia familiar.  Um dos pontos mais delicados da sucessão é a escolha do(s) integrante(s) da família que fará(ão) parte da gestão. É necessário avaliar vocação, capacidade técnica, preparo emocional e, acima de tudo, disposição para aprender e se adaptar à complexa dinâmica empresarial e a habilidade para relacionamento, principalmente com os familiares.   Nesse processo, é fundamental que o sucessor passe por uma aculturação profunda. Isso significa compreender o modelo de gestão, os valores cultivados ao longo dos anos, os processos e as relações de confiança construídas com colaboradores, clientes, fornecedores e familiares. A familiaridade com a família e com a empresa não pode ser confundida com prontidão para liderá-la. É preciso tempo, escuta e humildade para absorver a cultura organizacional e, gradualmente, contribuir com sua evolução.  Outro elemento essencial é o amadurecimento pessoal e profissional do sucessor. O curso universitário vai além da formação técnica: ele proporciona vivências que ajudam no desenvolvimento de competências como pensamento crítico, autonomia, responsabilidade e construção de rede de relacionamentos — o famoso networking, tão necessário para líderes que precisarão se relacionar com diferentes ecossistemas.  Além disso, sair da zona de conforto, seja morando fora do país, seja assumindo desafios fora da bolha familiar, é uma experiência transformadora. Enfrentar a realidade de uma cultura diferente, tomar decisões sozinho, lidar com frustrações e conquistas sem o amparo imediato da família são formas valiosas de fortalecer a autoestima, a autoconfiança e a capacidade de decisão — competências cruciais para quem irá liderar.  Outro passo importante é ter sido colaborador de outra empresa antes de entrar na gestão da empresa da família. Isso permite ao futuro sucessor vivenciar a lógica do mundo corporativo com outro olhar, entender o lugar, a visão e o papel do colaborador, lidar com metas, lideranças e expectativas diversas. Essa experiência torna o futuro líder mais empático e consciente do papel que terá com seus próprios times.  Por fim, é preciso destacar a diferença que faz ter um consultor externo nesse processo. A presença de um profissional isento, com experiência em governança familiar e empresarial, ajuda a mediar conflitos, alinhar expectativas e trazer à tona temas que muitas vezes ficam represados pela dificuldade de comunicação entre os integrantes da família. O consultor também contribui para construir uma visão compartilhada entre os pares da gestão, tornando a transição mais transparente e segura para todos os envolvidos.   A sucessão não deve ser tratada como um evento, mas como um processo contínuo de preparação e transformação. Quanto mais estruturada, aberta e planejada for essa jornada, maiores serão as chances de perpetuar não apenas o negócio, mas também os valores e o propósito da família empresária.

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Profissional ou “filho do dono”?

“O filho do dono”. Esse é um rótulo que soa como pejorativo nas empresas, mas que é algo inevitável quando alguém vai trabalhar na empresa da família. Um dos primeiros desafios de um herdeiro ou sucessor é, justamente, lidar com as expectativas que empregados e familiares têm em relação a ele. Todos tenderão a querer testar sua capacidade profissional para avaliar quanto da escolha para ocupar a função se deveu ao “privilégio” da herança ou à competência. Evidenciar sua habilitação é tarefa diária do herdeiro, desde o modo como se veste e se apresenta, passando pela postura profissional, até sua competência técnica. Alguns cuidados podem facilitar a passagem nessa “prova”, dentre os quais se destacam o respeito à hierarquia da estrutura de gestão vigente e o trato com as pessoas, independente do cargo ocupado. A relação de parentesco jamais deve ser usada para estabelecer um canal direto de acesso na hierarquia. Cabe ao herdeiro ou sucessor demonstrar compromisso com os padrões de qualidade da empresa, com o cumprimento das metas e com a entrega do que ficou responsável fazer, seja uma informação, um relatório ou uma tarefa. O melhor, até, é que seu modo de produzir possa ser tomado como exemplo. Além disso, é muito importante mostrar que trabalha em equipe. Convém, ainda, lembrar que uma boa formação acadêmica é um crédito, mas não assegura bom desempenho. Por isso, títulos não precisam ser alardeados, particularmente se  os demais integrantes da equipe não têm a mesma formação. Dicas de conduta para herdeiros na empresa familiar: 1. Lembrar que a empresa não é o ambiente familiar e evitar tratamentos íntimos, principalmente em grupo, bem como comentários sobre a vida pessoal. 2. Manter-se próximo à equipe de trabalho, integrando-se nas atividades cotidianas ou em eventos fora da rotina, sem excessos; não é necessário tornar-se amigo ou fazer confidências pessoais. Profissionalismo deve ser a regra. 3. Limitar-se ao exercício dos direitos e dos deveres, como um empregado não familiar, não buscando nem aceitando ser beneficiário de qualquer tipo de privilégio, tais como liberdade no cumprimento de horários ou prazos de entrega. 4. Participar dos espaços comuns de compartilhamento, tais como refeitórios ou locais para descanso e lazer. 5. Jamais usar o sobrenome como “senha” para acessar um benefício ou ter uma vantagem indevida. O Gestão Mais é uma coluna da TGI na revista Algomais. Leia a publicação completa aqui: www.revistaalgomais.com.br

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Herdeiros na empresa familiar

TRÊS RECOMENDAÇÕES PARA OS HERDEIROS DE EMPRESAS FAMILIARES: 1. Ter sempre conhecimento do seu papel e de como agir na empresa ou fora dela, levando em consideração direitos, deveres e obrigações 2. Saber que é indispensável o respeito à hierarquia da empresa, independente da posição de filho/filha, sobrinho, primo ou neto. Nada de misturar assuntos familiares em reuniões empresariais de trabalho, por exemplo. 3. Pensar bem o que deseja em termos de futuro profissional para si próprio e que aspiração verdadeira tem em relação à empresa da família Quem faz parte de uma empresa familiar e se interessa pelo tema da sucessão, com certeza já viu um gráfico mostrando que de cada 100 empresas familiares bem-sucedidas na primeira geração, só 30 conseguem sobreviver à segunda e apenas 15 à terceira. Independente da veracidade científica dessa estatística, mesmo porque, apesar do grande número de empresas familiares existentes (estima-se que no Brasil mais de 90% sejam de origem familiar), as estatísticas sobre o assunto ainda são raras e duvidosas no País, a prática cotidiana de consultoria em gestão permite, sobre o assunto, repetir o velho ditado italiano: “se non è vero, è bene trovato” (se não é verdade, é bem contado). De fato, sem uma sucessão bem-feita, a chance da empresa familiar ter dificuldades e até fechar ou ser vendida é grande. E quando se fala de sucessão bem-feita, se está falando da preparação dos herdeiros, seja para entrarem na gestão, serem futuros controladores ou proprietários não gestores, seja para serem apenas parentes sem propriedade nem gestão, se assim se preferir. Para qualquer dessas ou outras alternativas envolvendo a participação de herdeiros, todavia, é fundamental ter uma boa preparação. A esperiência mostra que o mais indicado mesmo é a montagem de um programa estruturado de formação dos herdeiros e identificação e preparação dos sucessores. Não se deve nunca entrarna administração da empresa de forma emergencial, muito menos para tentar salvar o negócio em épocas de crise como, infelizmente, não é raro acontecer. O mais indicado é profissionalizar a gestão e ter herdeiros preparados para, se for o caso, a qualquer momento, ter condições de assumir funções estratégicas na gestão ou na governança da empresa. Pensar o processo de forma adequada é preparar a geração seguinte para assumir o comando ou ter maturidade e conhecimento sobre o negócio para poder acompanhar com domínio na posição de herdeiro empresarial. Por outro lado, sabe-se, por experiência, que nem sempre os herdeiros se mostram interessados em assumir a gestão. Mas, independente se eles vão atuar ou não na corporação, prepará-los é uma forma de evitar que o processo mal feito possa prejudicar a longevidade da empresa, fazendo-a entrar na estatística de redução drástica de sobrevivência a partir da segunda geração. O Gestão Mais é uma coluna da TGI na revista Algomais. Leia a publicação completa aqui: www.revistaalgomais.com.br

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