Herdeiros

A encruzilhada das empresas familiares

Ao longo da minha trajetória como consultora, acompanhei e acompanho diversas empresas familiares atravessando o mesmo dilema: profissionalizar é sempre a chave do sucesso ou, ao fazer isso, corre-se o risco de perder a essência que tornou o negócio relevante? A pergunta parece simples, mas carrega camadas profundas de estratégia, identidade e legado. Nos últimos anos, tornou-se quase um mantra no mercado: para crescer, é preciso profissionalizar. Muitas empresas familiares, pressionadas por concorrência, governança e eficiência, adotaram essa diretriz como regra absoluta. Algumas foram além: instituíram políticas que impedem que novas gerações assumam cargos de gestão e participem do dia a dia dos negócios. Ou seja, optaram por afastar completamente a família da operação, entregando o comando exclusivamente a executivos de mercado. Mas será que esse radicalismo é, de fato, o melhor caminho? A profissionalização é, sim, fundamental. Processos estruturados, metas claras, governança e estratégia bem definidas, e lideranças capacitadas são pilares indispensáveis para a sustentabilidade e longevidade do negócio. Empresas que ignoram isso tendem a enfrentar conflitos internos, decisões pouco estratégicas e dificuldades de adaptação às exigências do mercado. Enfim, deixam a construção do futuro em segundo plano. Contudo, profissionalizar não significa, necessariamente, ter integrantes da família distantes e alheios ao empreendimento familiar. Quando toda a família é retirada da gestão, algo sutil começa a se perder ao longo do tempo. A empresa pode manter indicadores saudáveis, pode crescer em faturamento, mas gradualmente se distancia daquilo que a tornou única. A cultura deixa de ser vivida e passa a ser apenas descrita em manuais. O propósito vira discurso institucional. O “jeito de fazer” que a tornava especial se dilui. A família é o tempero da empresa. É ela que constrói a narrativa, que sustenta valores nos momentos difíceis, que imprime identidade às decisões. O amor pelo negócio, o orgulho do sobrenome associado à marca e o desejo genuíno de perpetuar um legado criam uma força motriz que dificilmente é replicada apenas por vínculos contratuais. Isso não significa defender uma gestão baseada apenas em laços de sangue. Pelo contrário. Empresas familiares precisam, mais do que nunca, de critérios claros, meritocracia e preparação. Familiares despreparados em posições estratégicas podem comprometer resultados e gerar conflitos. Mas familiares bem educados, desenvolvidos, avaliados por desempenho, alinhados às competências exigidas pelo cargo e, sobretudo, que admiram a história da família e têm interesse no negócio têm, sim, muito a contribuir. Barrar, de forma automática, a entrada da nova geração pode ser um equívoco estratégico. Se há qualificação, se há compromisso, se há aderência às responsabilidades do cargo, por que não? O ponto central não é “ser da família” ou “não ser da família”. O ponto é competência, alinhamento de valores e compromisso com o negócio. Posso dizer que é um privilégio para as empresas familiares contar com integrantes da família que atendam a esses requisitos e tenham interesse na sucessão dos negócios. O mundo ideal, na minha visão, é a mescla inteligente. Uma estrutura profissionalizada, com governança sólida e executivos qualificados, combinada com a presença ativa da família em papéis bem definidos. A família, independente da posição hierárquica ou atividade que exerça, tem como responsabilidade também ser guardiã da cultura, do propósito e da visão de longo prazo. Já os profissionais atuam mais como catalisadores de eficiência, inovação e expansão. Profissionalizar é necessário. Radicalizar, não. O verdadeiro desafio da empresa familiar não é escolher entre essência e gestão técnica. É encontrar o equilíbrio entre ambos. Porque, no fim, são justamente as empresas que conseguem unir competência e legado que atravessam gerações com relevância, consistência e identidade preservada.

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Sucessão em empresas familiares: preparar, acolher e transformar

A sucessão em empresas familiares é uma das etapas mais críticas e sensíveis do ciclo empresarial. Mais do que uma simples troca de comando, ela representa um profundo processo de transição de mentalidade, cultura e liderança. Quando conduzida de forma estruturada e intencional, pode ser uma poderosa alavanca para a perenidade dos negócios. Quando mal conduzida, torna-se um risco à continuidade e à harmonia familiar.  Um dos pontos mais delicados da sucessão é a escolha do(s) integrante(s) da família que fará(ão) parte da gestão. É necessário avaliar vocação, capacidade técnica, preparo emocional e, acima de tudo, disposição para aprender e se adaptar à complexa dinâmica empresarial e a habilidade para relacionamento, principalmente com os familiares.   Nesse processo, é fundamental que o sucessor passe por uma aculturação profunda. Isso significa compreender o modelo de gestão, os valores cultivados ao longo dos anos, os processos e as relações de confiança construídas com colaboradores, clientes, fornecedores e familiares. A familiaridade com a família e com a empresa não pode ser confundida com prontidão para liderá-la. É preciso tempo, escuta e humildade para absorver a cultura organizacional e, gradualmente, contribuir com sua evolução.  Outro elemento essencial é o amadurecimento pessoal e profissional do sucessor. O curso universitário vai além da formação técnica: ele proporciona vivências que ajudam no desenvolvimento de competências como pensamento crítico, autonomia, responsabilidade e construção de rede de relacionamentos — o famoso networking, tão necessário para líderes que precisarão se relacionar com diferentes ecossistemas.  Além disso, sair da zona de conforto, seja morando fora do país, seja assumindo desafios fora da bolha familiar, é uma experiência transformadora. Enfrentar a realidade de uma cultura diferente, tomar decisões sozinho, lidar com frustrações e conquistas sem o amparo imediato da família são formas valiosas de fortalecer a autoestima, a autoconfiança e a capacidade de decisão — competências cruciais para quem irá liderar.  Outro passo importante é ter sido colaborador de outra empresa antes de entrar na gestão da empresa da família. Isso permite ao futuro sucessor vivenciar a lógica do mundo corporativo com outro olhar, entender o lugar, a visão e o papel do colaborador, lidar com metas, lideranças e expectativas diversas. Essa experiência torna o futuro líder mais empático e consciente do papel que terá com seus próprios times.  Por fim, é preciso destacar a diferença que faz ter um consultor externo nesse processo. A presença de um profissional isento, com experiência em governança familiar e empresarial, ajuda a mediar conflitos, alinhar expectativas e trazer à tona temas que muitas vezes ficam represados pela dificuldade de comunicação entre os integrantes da família. O consultor também contribui para construir uma visão compartilhada entre os pares da gestão, tornando a transição mais transparente e segura para todos os envolvidos.   A sucessão não deve ser tratada como um evento, mas como um processo contínuo de preparação e transformação. Quanto mais estruturada, aberta e planejada for essa jornada, maiores serão as chances de perpetuar não apenas o negócio, mas também os valores e o propósito da família empresária.

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Profissional ou “filho do dono”?

“O filho do dono”. Esse é um rótulo que soa como pejorativo nas empresas, mas que é algo inevitável quando alguém vai trabalhar na empresa da família. Um dos primeiros desafios de um herdeiro ou sucessor é, justamente, lidar com as expectativas que empregados e familiares têm em relação a ele. Todos tenderão a querer testar sua capacidade profissional para avaliar quanto da escolha para ocupar a função se deveu ao “privilégio” da herança ou à competência. Evidenciar sua habilitação é tarefa diária do herdeiro, desde o modo como se veste e se apresenta, passando pela postura profissional, até sua competência técnica. Alguns cuidados podem facilitar a passagem nessa “prova”, dentre os quais se destacam o respeito à hierarquia da estrutura de gestão vigente e o trato com as pessoas, independente do cargo ocupado. A relação de parentesco jamais deve ser usada para estabelecer um canal direto de acesso na hierarquia. Cabe ao herdeiro ou sucessor demonstrar compromisso com os padrões de qualidade da empresa, com o cumprimento das metas e com a entrega do que ficou responsável fazer, seja uma informação, um relatório ou uma tarefa. O melhor, até, é que seu modo de produzir possa ser tomado como exemplo. Além disso, é muito importante mostrar que trabalha em equipe. Convém, ainda, lembrar que uma boa formação acadêmica é um crédito, mas não assegura bom desempenho. Por isso, títulos não precisam ser alardeados, particularmente se  os demais integrantes da equipe não têm a mesma formação. Dicas de conduta para herdeiros na empresa familiar: 1. Lembrar que a empresa não é o ambiente familiar e evitar tratamentos íntimos, principalmente em grupo, bem como comentários sobre a vida pessoal. 2. Manter-se próximo à equipe de trabalho, integrando-se nas atividades cotidianas ou em eventos fora da rotina, sem excessos; não é necessário tornar-se amigo ou fazer confidências pessoais. Profissionalismo deve ser a regra. 3. Limitar-se ao exercício dos direitos e dos deveres, como um empregado não familiar, não buscando nem aceitando ser beneficiário de qualquer tipo de privilégio, tais como liberdade no cumprimento de horários ou prazos de entrega. 4. Participar dos espaços comuns de compartilhamento, tais como refeitórios ou locais para descanso e lazer. 5. Jamais usar o sobrenome como “senha” para acessar um benefício ou ter uma vantagem indevida. O Gestão Mais é uma coluna da TGI na revista Algomais. Leia a publicação completa aqui: www.revistaalgomais.com.br

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Herdeiros na empresa familiar

TRÊS RECOMENDAÇÕES PARA OS HERDEIROS DE EMPRESAS FAMILIARES: 1. Ter sempre conhecimento do seu papel e de como agir na empresa ou fora dela, levando em consideração direitos, deveres e obrigações 2. Saber que é indispensável o respeito à hierarquia da empresa, independente da posição de filho/filha, sobrinho, primo ou neto. Nada de misturar assuntos familiares em reuniões empresariais de trabalho, por exemplo. 3. Pensar bem o que deseja em termos de futuro profissional para si próprio e que aspiração verdadeira tem em relação à empresa da família Quem faz parte de uma empresa familiar e se interessa pelo tema da sucessão, com certeza já viu um gráfico mostrando que de cada 100 empresas familiares bem-sucedidas na primeira geração, só 30 conseguem sobreviver à segunda e apenas 15 à terceira. Independente da veracidade científica dessa estatística, mesmo porque, apesar do grande número de empresas familiares existentes (estima-se que no Brasil mais de 90% sejam de origem familiar), as estatísticas sobre o assunto ainda são raras e duvidosas no País, a prática cotidiana de consultoria em gestão permite, sobre o assunto, repetir o velho ditado italiano: “se non è vero, è bene trovato” (se não é verdade, é bem contado). De fato, sem uma sucessão bem-feita, a chance da empresa familiar ter dificuldades e até fechar ou ser vendida é grande. E quando se fala de sucessão bem-feita, se está falando da preparação dos herdeiros, seja para entrarem na gestão, serem futuros controladores ou proprietários não gestores, seja para serem apenas parentes sem propriedade nem gestão, se assim se preferir. Para qualquer dessas ou outras alternativas envolvendo a participação de herdeiros, todavia, é fundamental ter uma boa preparação. A esperiência mostra que o mais indicado mesmo é a montagem de um programa estruturado de formação dos herdeiros e identificação e preparação dos sucessores. Não se deve nunca entrarna administração da empresa de forma emergencial, muito menos para tentar salvar o negócio em épocas de crise como, infelizmente, não é raro acontecer. O mais indicado é profissionalizar a gestão e ter herdeiros preparados para, se for o caso, a qualquer momento, ter condições de assumir funções estratégicas na gestão ou na governança da empresa. Pensar o processo de forma adequada é preparar a geração seguinte para assumir o comando ou ter maturidade e conhecimento sobre o negócio para poder acompanhar com domínio na posição de herdeiro empresarial. Por outro lado, sabe-se, por experiência, que nem sempre os herdeiros se mostram interessados em assumir a gestão. Mas, independente se eles vão atuar ou não na corporação, prepará-los é uma forma de evitar que o processo mal feito possa prejudicar a longevidade da empresa, fazendo-a entrar na estatística de redução drástica de sobrevivência a partir da segunda geração. O Gestão Mais é uma coluna da TGI na revista Algomais. Leia a publicação completa aqui: www.revistaalgomais.com.br

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